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Palavras de “Gentileza”

Novembro 29, 2008

O ônibus lotado chacoalhava em meio à imensidão de concreto sufocante. Pontes e viadutos se sobrepunham e ela se sentia cercada, presa. O tempo chuvoso acentuava o tom cinza daquelas construções, daquela cara metropolitana tão evidente.

 

 

 Tudo inspirava desconforto, a temperatura do ar, o contato forçado com pessoas geladas e indiferentes. O cansaço do dia incomum em uma cidade estranha. Nada poderia agradá-la naquela tarde hostil.

 

Nada, exceto algo incomum, ou seria algo comum? A poesia se faz conhecer e reconhecer, mesmo pintada no concreto. Eram palavras de conforto, palavras de esperança, palavras que destoavam brutalmente daquela tarde, daquele lugar… Eram palavras de “Gentileza”. Pintadas em vigas de viadutos, em meio a todo aquele caos do Rio de Janeiro.

 

De um português “agramatical”, de uma religiosidade fanática e exacerbada, de uma coerência completamente incoerente. Mas eram palavras de “Gentileza”! Palavras de uma língua sublime, de uma fé admirável e de uma intuição verdadeira.

 

As palavras de “Gentileza” estampadas no concreto carioca alegraram seu dia, colocaram-lhe no rosto contraído um sorriso. As palavras de “Gentileza” a poesia em meio ao caos.

 

 Rayssa Medeiros

 

FELICIDADE COMPRIMIDA

Maio 23, 2008

                                                                                                                                                                                                                                                          “Cientistas anunciam criação próxima de pílula da libido unissex.” Notícia curiosa, impensável há alguns anos não? Mas, por incrível que pareça é a mais pura verdade. 

 

Diretamente do ‘Terra’, para o meu choque. Sim, agora as drogas relacionadas ao prazer sexual, deixarão de ser meras coadjuvantes, agindo como simples desinibidoras ou intensificadoras de reações (o que um bom vinho não faz?), até mesmo com uma função mais importante; provocando ereções. Para serem as protagonistas das relações sexuais e sentimentais humanas.

 

Saudades dos tempos em que uma boa vida sexual só não dependeria de amor, caso uma disfunção física entrasse em jogo. Talveznaquela época… A época dos meus avós, o amor fosse mais… amor. Qual a razão pra se agüentar um parceiro sexualmente inativo pro resto de uma vida se não o amor verdadeiro? Tá, tudo bem! Talvez as convenções e a sociedade conservadora contribuíssem muito pra isso. Mas não no caso dos meus avós.

 

Em alguns olhares trocados entre eles, mesmo que rápidos e furtivos; em pequenos gestos que consistiam em cuidar um do outro, se percebia o amor. Amor de verdade não amor de mídia que te exige uma super-vida sexual. Com loucas aventuras, 365 posições novas por ano, bizarrices se necessário… mas monotonia e demonstrações (justas) de cansaço? Jamais, Mon Bien!!!

 

Antes que me atirem pedra: EU NÂO SOU CONTRA O VIAGRA! Não tenho absolutamente nada contra a busca de uma vida sexual saudável, muito menos da existência dela… A questão não é bem essa. O viagra, ou qualquer outro vaso-dilatador tem como função única e exclusiva provocar ereção em quem, por algum motivo, está impossibilitado de tê-la naturalmente. A proposta “pílula da libido” se dispõe, não apenas a provocar ereção, como o desejo do “paciente”. Pensem comigo, seria algo como um cio artificial?

 

Vamos um pouco mais a fundo nessa questão. A tal pílula, se tornaria desse modo a mais nociva das drogas… Bom, os efeitos alucinógenos de tal coisa seriam até piores do que os da cocaína? Afinal de contas após o “barato” do desejo simulado, viria um bom e belo, balde de água fria: -Mas como assim você não me ama? Há uma hora nós fizemos amor de maneira tão intensa e apaixonada… Como agora você pode agir como se nada tivesse acontecido? –Daí caros amigos, o fundo do poço!

 

Afinal de contas, as relações humanas (que já não andam lá essas coisas) iriam capengar de uma vez por todas. Casamentos destruídos teriam uma pequena injeção de ânimo para continuar, além é claro, dos fatores financeiros e burocráticos (esses já começam até a serem mais flexíveis). Relações perdidas se baseariam não no restinho de sentimento que ainda resista, mas em um combustível químico encontrado na drogaria mais próxima a uma módica quantia se comparada ao alto preço de encarar a vida de frente.

 

 

Rayssa Medeiros