Quantos de nós já não fomos ninados por nossos pais com aquelas cantigas que adorávamos? E quantos pretendemos continuar fazendo com nossos rebentos? Pois é, embalar os filhotes com melodias tranqüilas (ou não) é um hábito saudável, que pode reforçar a afetividade entre pais e filhos. Afinal por mais desafinado que seja o abobalhado pai, não há som que a criança ame mais no mundo. Pois bem, some-se isso a um pai mega talentoso e o resultado será não apenas um pimpolho embalado, como o mundo suspirando e participando daquela relação tão íntima. Pais famosos no mundo da música costumam imortalizar seus herdeiros com lindas canções que nos deixam com uma pontinha de inveja (Poxa, meus pais bem podiam ser compositores, né não?). E é pra falar desses pais que presentearam seus filhos com a beleza imaterial, e em alguns casos perpétua, da música que eu escrevo hoje. Há vários exemplos de belas canções feitas por excelentes artistas para os seus pequenos, mas escolhi 4 lindíssimas músicas, com histórias igualmente belas, pra mostrar sobre o que estou falando.
“To Zion” de Lauryn Hill
A cantora de hip hop e soul, ex-integrante do The Fugees (grupo que a projetou, com a regravação do single “Killing me softly” de Roberta Flack), Lauryn Hill fez uma linda homenagem ao seu primogênito Zion, que teve com ninguém menos que Rohan Marley. O guri tem sorte, neto de Bob Marley e filho de Lauryn Hill.
Na época em que engravidou de Zion, Lauryn tinha um relacionamento complicado com Rohan, que era casado com outra mulher, estava no começo de sua carreira e uma gravidez estava completamente fora dos planos. Por isso mesmo Lauryn manteve em segredo a identidade do pai do bebê. Muitas pessoas, inclusive amigos próximos, aconselharam a cantora a fazer um aborto, mas ela decidiu ter a criança. É sobre essa experiência que Lauryn fala em “To Zion”, com uma letra lindíssima, onde ela diz ter recebido conselhos para “usar a cabeça, mas decidiu usar o coração. E agora a alegria do seu mundo está em Zion”. Ela ainda faz declarações de amor ao filho, agradecendo a Deus por ter sido “escolhida pra trazer ao mundo esse lindo reflexo de sua graça”. Bom, a música é realmente linda, está no premiado (e incrível de tão bom) disco “The miseducattion of Lauryn Hill”, e só tem uma contra-indicação, a quem ainda não planeja iniciar a prole, pois pode causar um desejo incontrolável de perpetuar os genes! E a título de curiosidade, Lauryn e Rohan acabaram se casando e hoje, incluindo Zion, tem 5 filhos.
“Oito anos” e “Barcelona 16” de Paula Toller
Gabriel, filho de Paula Toller com o cineasta Lui Farias, também é o que podemos chamar de uma boa fonte de inspiração materna. Paula compôs duas músicas para o seu pequeno, “Oito anos” e “Barcelona 16”.
A primeira é sobre as inquietações de Gabriel, que muito bem se aplicam a qualquer criança dessa idade. Em uma série de questionamentos embalados em uma melodia alegre, Paula consegue nos deixar com aquele suspirinho de emoção. A música é tão linda que já ganhou outra versão, de Adriana Calcanhoto em seu disco Partimpim (que, na minha opinião, é melhor do que a de Paula). Mais recentemente ela compôs “Barcelona 16” pra falar daquele segundo corte do cordão umbilical, mais especificamente do segundo parto que ela cita na música e diz não saber que existisse. Muitas pessoas acham essa uma de suas melhores composições, eu mesma prefiro “Oito anos “, mas cada um com seu cada qual. Na dúvida confiram as duas que valem a pena!
Preferi colocar a versão de Adriana Calcanhoto, por preferência minha, como já disse #D
“Espatódea” de Nando Reis
A pequena Zoé não foi a primeira filha pra quem Nando Reis compôs uma música, pelo contrário, foi a última. Caçula de 4 irmãos, Zoé despertou o desejo de ter uma música feita para ela, pelo papai famoso, aos 5 anos, quando Nando compôs “O mundo é bão Sebastião” pra Sebastião, um pouco mais velho que a caçula. Nando contou que Zoé sempre perguntava, “Papai, quando você vai fazer uma música o “O mundo é bão, Zoezinha?””. Aí ele viu que era hora de homenagear a sua caçula.
Como Zoé é a única dos 4 filhos que se parece fisicamente com ele, (cabelos ruivos e pele branca) Nando fala dessa semelhança, e a compara com a espatódea, que é uma árvore cuja flor é da mesma cor dos cabelos da perguntadeira Zoé. Ele ainda fala sobre a origem do nome da pequena, e conta que mesmo chegando em uma casa onde já haviam 3 filhos, ela mudou sua vida. Ah, e o nome dela vem ao final da música para que ela pudesse comprovar pros amiguinhos do colégio que a música era mesmo para ela.
Espatódea é uma das músicas mais lindas que já vi serem deixadas de herança, e com certeza, quando crescer, Zoé terá a exata dimensão do que seu pai lhe deixou.
“Tears in heaven” de Eric Clapton
Você com certeza já ouviu essa música, e mesmo deve ter ouvido sobre a história dela, mas como é uma música que me emociona muito resolvi que ela é suficientemente relevante e deveria estar aqui. Eric Clapton compôs essa obra prima em 1991, como catarse pra superar a morte de seu filho Conor, que contava apenas 4 anos na época do falecimento. Conor caiu do 52º andar, quando a empregada da família deixou a janela parcialmente aberta. A fatalidade levou a empregada a um colapso nervoso e a mãe do menino, Lori Del Santo, ao desespero. Eric, no entanto, resolveu homenagear o filho e escreveu “Tears in Heaven”, que a princípio não seria divulgada. A mãe de Conor se recusou a ouvir a canção quando Eric a compôs.
Em “Tears in Heaven” Eric fala sobre como seria encontrar com o filho no paraíso, e diz que tem que ser forte pra prosseguir, pois, ao contrário de Conor, ele ainda não pertence ao paraíso. Ele arremata dizendo que não haverá mais lágrimas no paraíso.
E se a própria melodia da música já me deixava com lágrimas nos olhos, ao entender a letra, anos mais tarde, essas lágrimas caíram, e depois quando soube de todo o contexto, aí então me emociono mais. Porém tenho a certeza de que esse foi um lindo caminho, não apenas para superar a dor, mas para presentear o pequeno.
Rayssa Medeiros
Tags: Eric Clapton, espatódea, história musical, Lauryn Hill, Música, Nando Reis, oito anos, Paula Toller, tears in heaven, to Zion
fevereiro 6, 2011 às 1:12 pm |
Muito boa qualidade esta matéria, me ajudou a concluir um trabalho para Faculdade sobre leitura reduzida e ampliada, as entrelinhas. Quando uma leitura contribui para o crescimento de alguém é que valeu a pena. Gratificante, obrigada.
fevereiro 6, 2011 às 10:00 pm |
Gratificante para mim saber que meu texto pôde ajudá-la. Muito obrigada pelo elogio, fico muito feliz em ter contribuído de alguma maneira.