FELICIDADE COMPRIMIDA

By Rayssa Medeiros

                                                                                                                                                                                                                                                          “Cientistas anunciam criação próxima de pílula da libido unissex.” Notícia curiosa, impensável há alguns anos não? Mas, por incrível que pareça é a mais pura verdade. 

 

Diretamente do ‘Terra’, para o meu choque. Sim, agora as drogas relacionadas ao prazer sexual, deixarão de ser meras coadjuvantes, agindo como simples desinibidoras ou intensificadoras de reações (o que um bom vinho não faz?), até mesmo com uma função mais importante; provocando ereções. Para serem as protagonistas das relações sexuais e sentimentais humanas.

 

Saudades dos tempos em que uma boa vida sexual só não dependeria de amor, caso uma disfunção física entrasse em jogo. Talveznaquela época… A época dos meus avós, o amor fosse mais… amor. Qual a razão pra se agüentar um parceiro sexualmente inativo pro resto de uma vida se não o amor verdadeiro? Tá, tudo bem! Talvez as convenções e a sociedade conservadora contribuíssem muito pra isso. Mas não no caso dos meus avós.

 

Em alguns olhares trocados entre eles, mesmo que rápidos e furtivos; em pequenos gestos que consistiam em cuidar um do outro, se percebia o amor. Amor de verdade não amor de mídia que te exige uma super-vida sexual. Com loucas aventuras, 365 posições novas por ano, bizarrices se necessário… mas monotonia e demonstrações (justas) de cansaço? Jamais, Mon Bien!!!

 

Antes que me atirem pedra: EU NÂO SOU CONTRA O VIAGRA! Não tenho absolutamente nada contra a busca de uma vida sexual saudável, muito menos da existência dela… A questão não é bem essa. O viagra, ou qualquer outro vaso-dilatador tem como função única e exclusiva provocar ereção em quem, por algum motivo, está impossibilitado de tê-la naturalmente. A proposta “pílula da libido” se dispõe, não apenas a provocar ereção, como o desejo do “paciente”. Pensem comigo, seria algo como um cio artificial?

 

Vamos um pouco mais a fundo nessa questão. A tal pílula, se tornaria desse modo a mais nociva das drogas… Bom, os efeitos alucinógenos de tal coisa seriam até piores do que os da cocaína? Afinal de contas após o “barato” do desejo simulado, viria um bom e belo, balde de água fria: -Mas como assim você não me ama? Há uma hora nós fizemos amor de maneira tão intensa e apaixonada… Como agora você pode agir como se nada tivesse acontecido? –Daí caros amigos, o fundo do poço!

 

Afinal de contas, as relações humanas (que já não andam lá essas coisas) iriam capengar de uma vez por todas. Casamentos destruídos teriam uma pequena injeção de ânimo para continuar, além é claro, dos fatores financeiros e burocráticos (esses já começam até a serem mais flexíveis). Relações perdidas se baseariam não no restinho de sentimento que ainda resista, mas em um combustível químico encontrado na drogaria mais próxima a uma módica quantia se comparada ao alto preço de encarar a vida de frente.

 

 

Rayssa Medeiros

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2 Respostas para “FELICIDADE COMPRIMIDA”

  1. Fernanda Disse:

    Pois é, vivemos num mundo da “felicidade artificial”. Tem gente que passa a vida na base dos lexotans e dos prozacs, gente incapaz de assumir um compromisso enchendo a cara e tomando sua dosezinha de viagra toda noite que vai pra balada, ficar com alguém diferente da noite anterior.
    E se já não bastasse o ecstasy como “droga do amor”, vamos ter mais uma agora, disponível na farmácia mais próxima.
    “Moço, me dá um paracetamol, umas camisinhas, aquelas pípulas do amor e umas balinhas de menta, por favor?”

    Exagerando um pouco, me lembrei de “Admirável Mundo Novo” e seus “somas”… Será que algum dia vamos chegar em tal nível?

  2. Fernanda Eggers Disse:

    Só pra constar: não recebi nenhum e-mail seu… =p

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