Era um dia frio, “dias frios não combinam com essa cidade quente”. Pensou e seguiu, mesmo ressabiada com aquele clima estranho. E não era apenas a temperatura que estava diferente, mas a cor da cidade, a atmosfera. Do aconchego que normalmente sentia ao caminhar pelas ruas da “porta do sol”, nem o rastro. Uma sensação estranha a tomava. Desde quando acordara, sabia que teria sido melhor ficar em casa. Mas, ela não podia. Era preciso trabalhar, era preciso estudar. Ainda era uma Terça-feira e o tão aguardado fim de semana estava longe, só esse fato normalmente a deixaria com vontade de dormir mais um pouco e passar da hora. E com aquele clima… bom, a cama era mesmo o melhor lugar. E assim, perdeu a hora, mas a custo se levantou. Tinha que fazê-lo. E o fez.
A sensação de desconforto e abandono parecia impossibilitá-la. Mas, ela lutou contra as suas cismas, entrou em baixo do chuveiro. E que água gelada! Parecia subjugá-la. Vestiu-se com calça jeans, camiseta, casaco e “tênis.” Ela nunca usava tênis, a não ser que quisesse se sentir mais limpa, ou protegida. Bom, era o segundo caso. Tênis sempre a faziam sentir-se mais protegida. E era exatamente aquela sensação de aconchego que ela tentava retomar quando pôs os pés nas meias, ainda sentada no chão frio do seu quarto. Num gesto, quase que ritualístico, quase como uma oração, “Que esses tênis me protejam da minha angústia, Amém!”
Calçada, vestida, com o estômago levemente forrado pela rápida refeição (um café forte e um pedaço de pão com alguma coisa) ela pôs a bolsa, bolsa grande, do tamanho necessário para abrigar seu mundinho portátil (passar o dia todo fora de casa se tornava mais suportável quando ela podia carregar um pouco de casa consigo) e saiu.
Agora ali estava ela, naquela atmosfera estranha, com aquele vento estranho e aquele céu cinza, ela se punha mais intrigada ainda. Alguma coisa desde que acordara lhe rondava a cabeça, como se fosse algo importante e desagradável que quisesse lembrar, mas não tivesse como. “O que era mesmo?” Ela fazia força e as lembranças quase lhe vinham, mas na hora “H” prestes a fazer a conexão neural final, o elo elétrico se partia. Isso a atormentava mais e ela fazia força para lembrar, tanta força que a sua expressão era sofrida, impregnada de caretas de consternação. Parecia assim ridícula, “nossa se alguém me vir vai achar que sou louca” Mas, ninguém a via. A rua, também estranhamente, estava deserta. Em plenas 10 horas da manhã. “Como estou atrasada!”
Depois de devanear um pouco sobre as suas caretas e relembrar seu atraso, as idéias lhe chegaram e ela ao contrário do que esperava não se aliviou. “Foi um sonho!” Um sonho, havia sido um sonho. “Na verdade dois!” Foi isso… Dois sonhos estranhos ela havia tido.
“O primeiro… bom no primeiro eu perdia um brinco!” Pôs a mão na orelha e se certificou que saíra de casa com os dois brincos. “O segundo… não, esse foi o segundo. Primeiro eu sonhei… O que foi que eu sonhei mesmo? Só lembro que foi uma coisa bem ruim… Sim, eu sonhei que levava um tiro!” Ela entrou em choque ao se lembrar e ao ouvir aquilo que a fez pensar que novamente estava em um sonho. “Isso é um assalto!” Ela gritou assustada e viu aquele brilho prateado entre seus olhos. Gelou, mais fria que aquele ar e então ouviu: “Passe o celular se não eu atiro” instintivamente abriu seu mundo, quer dizer a bolsa, e procurou pelo celular que ela sabia que não estava ali, já havia sido esquecido ou levado, quem sabe tivesse caído em algum buraco negro ao sair do seu mundo. O fato era que ele não estava ali, no ápice do desespero ela lembrou, e parou de procurar, por um instante ela pôde sentir seu sangue quente escorrendo pela face e se evaporando naquela atmosfera estranha. Pôde sentir a dor repentina e indescritível da bala lhe penetrando a carne e roubando a vida. Tudo parecia tão real, ela já sentia como fato consumado. Quando de repente… ela ouviu novamente uma voz, não a mesma que lhe havia sentenciado, mas outra, tão cruel quanto, mas não a mesma. “Não, não, dê a bolsa toda” “Ahn?” “A bolsa toda e não corra e não grite!” Ela demorou a compreender a ordem, ou pelo menos a se resolver a aceitá-la. “Vai logo!!!” E assim lhe arrancaram a sua bolsa e fugiram. Ela precipitou um choro compulsivo, cujo motivo nem ela mesma conseguia explicar, de certo a ela só uma coisa. De repente o “seu mundo” fazia sentido para mais alguém.
Rayssa Medeiros