O sonho

Julho 6, 2008 by Rayssa Medeiros

Era um dia frio, “dias frios não combinam com essa cidade quente”. Pensou e seguiu, mesmo ressabiada com aquele clima estranho. E não era apenas a temperatura que estava diferente, mas a cor da cidade, a atmosfera. Do aconchego que normalmente sentia ao caminhar pelas ruas da “porta do sol”, nem o rastro. Uma sensação estranha a tomava. Desde quando acordara, sabia que teria sido melhor ficar em casa. Mas, ela não podia. Era preciso trabalhar, era preciso estudar. Ainda era uma Terça-feira e o tão aguardado fim de semana estava longe, só esse fato normalmente a deixaria com vontade de dormir mais um pouco e passar da hora. E com aquele clima… bom, a cama era mesmo o melhor lugar. E assim, perdeu a hora, mas a custo se levantou. Tinha que fazê-lo. E o fez.

A sensação de desconforto e abandono parecia impossibilitá-la. Mas, ela lutou contra as suas cismas, entrou em baixo do chuveiro. E que água gelada! Parecia subjugá-la. Vestiu-se com calça jeans, camiseta, casaco e “tênis.” Ela nunca usava tênis, a não ser que quisesse se sentir mais limpa, ou protegida. Bom, era o segundo caso. Tênis sempre a faziam sentir-se mais protegida. E era exatamente aquela sensação de aconchego que ela tentava retomar quando pôs os pés nas meias, ainda sentada no chão frio do seu quarto. Num gesto, quase que ritualístico, quase como uma oração, “Que esses tênis me protejam da minha angústia, Amém!”

Calçada, vestida, com o estômago levemente forrado pela rápida refeição (um café forte e um pedaço de pão com alguma coisa) ela pôs a bolsa, bolsa grande, do tamanho necessário para abrigar seu mundinho portátil (passar o dia todo fora de casa se tornava mais suportável quando ela podia carregar um pouco de casa consigo) e saiu.

Agora ali estava ela, naquela atmosfera estranha, com aquele vento estranho e aquele céu cinza, ela se punha mais intrigada ainda. Alguma coisa desde que acordara lhe rondava a cabeça, como se fosse algo importante e desagradável que quisesse lembrar, mas não tivesse como. “O que era mesmo?” Ela fazia força e as lembranças quase lhe vinham, mas na hora “H” prestes a fazer a conexão neural final, o elo elétrico se partia. Isso a atormentava mais e ela fazia força para lembrar, tanta força que a sua expressão era sofrida, impregnada de caretas de consternação. Parecia assim ridícula, “nossa se alguém me vir vai achar que sou louca” Mas, ninguém a via. A rua, também estranhamente, estava deserta. Em plenas 10 horas da manhã. “Como estou atrasada!”

Depois de devanear um pouco sobre as suas caretas e relembrar seu atraso, as idéias lhe chegaram e ela ao contrário do que esperava não se aliviou. “Foi um sonho!” Um sonho, havia sido um sonho. “Na verdade dois!” Foi isso… Dois sonhos estranhos ela havia tido.

 

 

“O primeiro… bom no primeiro eu perdia um brinco!” Pôs a mão na orelha e se certificou que saíra de casa com os dois brincos. “O segundo… não, esse foi o segundo. Primeiro eu sonhei… O que foi que eu sonhei mesmo? Só lembro que foi uma coisa bem ruim… Sim, eu sonhei que levava um tiro!” Ela entrou em choque ao se lembrar e ao ouvir aquilo que a fez pensar que novamente estava em um sonho. “Isso é um assalto!” Ela gritou assustada e viu aquele brilho prateado entre seus olhos. Gelou, mais fria que aquele ar e então ouviu: “Passe o celular se não eu atiro” instintivamente abriu seu mundo, quer dizer a bolsa, e procurou pelo celular que ela sabia que não estava ali, já havia sido esquecido ou levado, quem sabe tivesse caído em algum buraco negro ao sair do seu mundo. O fato era que ele não estava ali, no ápice do desespero ela lembrou, e parou de procurar, por um instante ela pôde sentir seu sangue quente escorrendo pela face e se evaporando naquela atmosfera estranha. Pôde sentir a dor repentina e indescritível da bala lhe penetrando a carne e roubando a vida. Tudo parecia tão real, ela já sentia como fato consumado. Quando de repente… ela ouviu novamente uma voz, não a mesma que lhe havia sentenciado, mas outra, tão cruel quanto, mas não a mesma. “Não, não, dê a bolsa toda” “Ahn?” “A bolsa toda e não corra e não grite!” Ela demorou a compreender a ordem, ou pelo menos a se resolver a aceitá-la. “Vai logo!!!” E assim lhe arrancaram a sua bolsa e fugiram.  Ela precipitou um choro compulsivo, cujo motivo nem ela mesma conseguia explicar, de certo a ela só uma coisa. De repente o “seu mundo” fazia sentido para mais alguém.

 

 

Rayssa Medeiros

 

As Pérolas de Rita

Junho 23, 2008 by Rayssa Medeiros

Sempre me perguntei o sentido do amor verdadeiro… Acho que o descobri, há mais ou menos um ano atrás.

 

Estávamos todos ainda muito abalados com a morte de meu avô, e minha avó distribuía entre a família pertences dele, que ela gostaria que ficassem com quem pudesse ainda utilizá-los. Ao meu ver era como se ela quisesse dar continuidade aos hábitos de meu avô, como se ao utilizarmos aqueles objetos pudéssemos mantê-lo vivo no nosso dia-dia. E assim foi: Sapatos ao meu tio, um terno ao meu irmão, entre outros souvenires que foram distribuídos entre todos.

 

Eu, no entanto nada recebi dos objetos de meu avô. Recebi, porém, algo muito mais valioso. Minha avó veio até mim, me entregou uma caixinha, outra à minha irmã e disse: “Esses aqui são para vocês duas.”

 

Não entendi bem o que poderia ser, afinal o que meu avô teria que coubesse naquela caixinha decorada? Ao abrimos vimos o que havia alí, pequenos colares antigos alguns de pérolas e outros dourados com pedrinhas coloridas. Então minha avó explicou-nos o presente: “ São minhas bijouterias, pra vocês por que eu não tenho mais para que usar.”

 

Esse episódio poderia sim,passar despercebido afinal eram apenas bijouterias… Mas não, não eram apenas bijouterias, era muito mais que isso. Minha avó entregou nos naquele dia, dentro daquelas caixinhas, a sua própria vaidade. Numa certeza absoluta que só quem encontra o amor pode ter. Ela mostrou-se realizada, plena no amor como eu jamais imaginaria, que alguém pudesse se sentir; desprendendo-se de sua própria vaidade com toda a certeza de que o amor já aconteceu em sua vida. Naquele dia eu encontrei a resposta para a minha pergunta. Por que o sentido do amor é doação. Minha avó doou-se para o meu avó até depois que ele partiu.

 

Naquele dia minha avó me deu o maior presente que eu poderia ganhar. Ela me respondeu uma das maiores perguntas para a qual muitas pessoas passam a vida procurando a resposta.

 

 

Rayssa Medeiros

Amarelo Manga.

Junho 19, 2008 by Rayssa Medeiros

A poesia no meio da lama.

Um filme forte e sem floreios! Essa é a primeira definição que me vem à cabeça. Fruto dessa nova e efervescente geração do cinema nordestino, mais especificamente do cinema pernambucano, Amarelo Manga possui um enredo que se passa no burburinho do lado pobre de Recife. O filme é uma crônica sobre o ser humano. Mais especificamente sobre o ser humano de classe baixa de um dos maiores centros urbanos brasileiros. Numa história que incomoda, inquieta e agride a consciência, o que se vê não é um “maquiamento” da pobreza. Tão pouco uma idealização dos personagens e do meio em que vivem. Mas se não há confetes, também não se pode dizer que há escárnio.

Vencedor de vários prêmios em alguns dos mais importantes festivais de cinema do mundo, Amarelo é mais um representante dessa nova e rica onda de produções pernambucanas que vêm acontecendo desde Baile perfumado. O filme faz, o que o cinema nordestino faz de melhor, contar a história de sua gente.

Todo o cenário e toda a visão dos personagens são cuidadosamente colocados, de maneira a servir de pano de fundo para o tema principal do filme: O homem. O que se coloca em questão, o que se vê em destaque, são os sentimentos, pensamentos, perversões, desejos, sonhos e medos daquelas pessoas. Pode-se também afirmar que o filme parece às vezes ser construído sem edição, pois o que se observa é um todo de todos os personagens. Nenhum é enaltecido, mas todos são explicados. São então seres humanos em um ambiente denso e insalubre da periferia de Recife, cheios de nuances de caráter, nenhum é bandido ou mocinho. Cada um com uma particularidade, dentro daquele contexto social, acaba tendo uma função extremamente metafórica se comparados à humanidade como um todo. O filme, aliás, toca nas feridas sociais da cidade, sem ao menos dizer uma palavra sobre isso.

O padre que temia a morte, a velha matrona que carregava consigo suas culpas e padecia da solidão, a mulher sexualmente reprimida, o homossexual que buscava o amor, a amargura na vida da dona de bar… Todos acabam tendo um importante papel nessa criação brilhante, que choca pelas imagens fortes, a linguagem “esculacho” e o cenário “sujo”. Mas tudo isso é essencial para criar a atmosfera reflexiva do filme e chamar a atenção do espectador para os pontos chaves da narrativa.

Embora de classe baixa e de pouca instrução, os personagens vez ou outra soltam frases e pensamentos de muita propriedade e até com muita poética. Algumas vezes eles falam direto para a câmera como forma de fisgar, de dialogar com o espectador. Recurso muito eficiente, pois envolve ainda, faz o espectador sentir o universo insalubre e pobre das personagens. A construção de Cláudio Assis sempre tão característica é executada com maestria nesse longa.

Amarelo Manga é pura poesia no meio da lama.

Rayssa Medeiros

As Mulheres e o Hinduísmo

Maio 28, 2008 by Rayssa Medeiros

No hinduísmo a importancia das mulheres é imprescindível para a manutenção das tradições e costumes da religião. A maior prova disso é que grande parte das lendas hindus são passadas da mãe para os filhos. Ao contrário da maioria das religiões, cujos cultos são realizados semanalmente, a adoração hinduísta é praticada todos os dias e normalmente é presidida pela mulher da casa.

 

Por isso, não coincidentemente, a divindade que governa a educação, as artes e o conhecimento religioso é Saraswati; a divindade que rege a riqueza e o comércio é Lakshmi; a divindade associada à força e à proteção é Durga; todas são Deusas.

 

A partir do século XX muitos guias espirituais hindus, passaram a reconhecer o quanto era importante a participação da mulher na orientação espiritual dos praticantes. Upasani BaBa, um polêmico adepto tântrico, foi o primeiro a encorajar as mulheres a praticarem ritos védicos, uma ramificação dos credos hinduístas, sem a orientação de sacerdotes. Upasani Pregava que as mulheres são capazes de uma evolução espiritual mais rápida que a dos homens, e que se eles quisessem progredir teriam que cultivar qualidades femininas como a pureza e a falta de egoísmo.

 

Esse pensamento se espalhou e grandes mestres indianos como Paramahansa Yogananda (que trouxe a linhagem da krya Yoga ao ocidente) transmitiram seus mantos espirituais a discípulas mulheres. E principalmente no ocidente o que se vê é o crescimento do número de representantes do sexo feminino como líderes espirituais hinduístas.

 

 

Rayssa Medeiros

 

 

 

Esse texto faz parte de uma série de artigos sobre mulheres e religiões, que escrevi para uma coluna na universidade há um tempo. Pretendo postá-los aqui pois gostei do resultado ^^ beijos a todos!

O endeusamento da juventude

Maio 27, 2008 by Rayssa Medeiros

É fato que a juventude tem sim, seus encantos. Mas nos dias de hoje, o que vemos em toda parte são crianças e adultos que se recusam a aproveitar seu momento. A mídia, cada vez mais, muda seu padrão de idealização. Onde antes viam-se telenovelas e programas que colocavam a família como ideal de felicidade,  hoje vêem-se seriados teen. A indústria americana, fatura milhões com filmes ambientados na “high school”, que são mais baratos de serem produzidos, e acertam em cheio um público ávido por viver uma vida “jovem” e cheia de aventuras.

 

A revolução social pela qual passamos, desobrigou-nos a casar, ter filhos; esse processo teve um efeito inegavelmente positivo, ao admitir novas formas de vida em sociedade. E prolongou o efeito “jovem” da solteirice. O grande problema, começa quando a mídia entra no jogo.

 

Através de toda sorte de mensagens midiáticas, o que se vê são crianças vestidas como adolescentes, que não mais brincam de esconder, de roda ou de mamãe e filhinha. Crianças que possuem bonecas de cabelos coloridos, roupas brilhantes e slogans como “ela vai se acabar na pista”. O que se vê são adultos deprimidos, infelizes com a sua condição de serem adultos. E cada vez mais, jovens que não sabem o que fazer com toda essa euforia que envolve a juventude; jovens cada vez mais perdidos e frustrados, por que não entendem como podem ser jovens, e não se sentirem perfeitamente felizes o tempo todo. Parece que num tempo onde se “respeita e valoriza” a diferença, esqueceram de incluir a questão do momento como um ponto a ser considerado. Talvez se começarmos a reconhecer a beleza de cada idade, tenhamos uma sociedade mais equilibrada e menos distorcida.

 

Rayssa Medeiros

FELICIDADE COMPRIMIDA

Maio 23, 2008 by Rayssa Medeiros

                                                                                                                                                                                                                                                          “Cientistas anunciam criação próxima de pílula da libido unissex.” Notícia curiosa, impensável há alguns anos não? Mas, por incrível que pareça é a mais pura verdade. 

 

Diretamente do ‘Terra’, para o meu choque. Sim, agora as drogas relacionadas ao prazer sexual, deixarão de ser meras coadjuvantes, agindo como simples desinibidoras ou intensificadoras de reações (o que um bom vinho não faz?), até mesmo com uma função mais importante; provocando ereções. Para serem as protagonistas das relações sexuais e sentimentais humanas.

 

Saudades dos tempos em que uma boa vida sexual só não dependeria de amor, caso uma disfunção física entrasse em jogo. Talveznaquela época… A época dos meus avós, o amor fosse mais… amor. Qual a razão pra se agüentar um parceiro sexualmente inativo pro resto de uma vida se não o amor verdadeiro? Tá, tudo bem! Talvez as convenções e a sociedade conservadora contribuíssem muito pra isso. Mas não no caso dos meus avós.

 

Em alguns olhares trocados entre eles, mesmo que rápidos e furtivos; em pequenos gestos que consistiam em cuidar um do outro, se percebia o amor. Amor de verdade não amor de mídia que te exige uma super-vida sexual. Com loucas aventuras, 365 posições novas por ano, bizarrices se necessário… mas monotonia e demonstrações (justas) de cansaço? Jamais, Mon Bien!!!

 

Antes que me atirem pedra: EU NÂO SOU CONTRA O VIAGRA! Não tenho absolutamente nada contra a busca de uma vida sexual saudável, muito menos da existência dela… A questão não é bem essa. O viagra, ou qualquer outro vaso-dilatador tem como função única e exclusiva provocar ereção em quem, por algum motivo, está impossibilitado de tê-la naturalmente. A proposta “pílula da libido” se dispõe, não apenas a provocar ereção, como o desejo do “paciente”. Pensem comigo, seria algo como um cio artificial?

 

Vamos um pouco mais a fundo nessa questão. A tal pílula, se tornaria desse modo a mais nociva das drogas… Bom, os efeitos alucinógenos de tal coisa seriam até piores do que os da cocaína? Afinal de contas após o “barato” do desejo simulado, viria um bom e belo, balde de água fria: -Mas como assim você não me ama? Há uma hora nós fizemos amor de maneira tão intensa e apaixonada… Como agora você pode agir como se nada tivesse acontecido? –Daí caros amigos, o fundo do poço!

 

Afinal de contas, as relações humanas (que já não andam lá essas coisas) iriam capengar de uma vez por todas. Casamentos destruídos teriam uma pequena injeção de ânimo para continuar, além é claro, dos fatores financeiros e burocráticos (esses já começam até a serem mais flexíveis). Relações perdidas se baseariam não no restinho de sentimento que ainda resista, mas em um combustível químico encontrado na drogaria mais próxima a uma módica quantia se comparada ao alto preço de encarar a vida de frente.

 

 

Rayssa Medeiros

Hello world!

Maio 22, 2008 by Rayssa Medeiros

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