Prédio localizado no Cabo Branco passou a abrigar pessoas que não têm condições de pagar aluguel
Rayssa Medeiros // Especial O Norte
Lixo, dejetos, uma construção em ruínas e crianças que brincam indiferentes aos riscos que as rodeiam. Esse é o cenário em um hotel abandonado no Altiplano Cabo Branco. Famílias inteiras hoje usam o hotel, cuja construção foi interrompida, como moradia. Sem condições de pagar aluguel, a família de Josué Ricardo de Oliveira, 45 anos, mudou-se do bairro de Mangabeira para o prédio há três meses. Josué, que é ambulante, trouxe mulher, duas filhas, genros e netos. Eles ocuparam os quartos da construção e vivem sem água encanada e saneamento básico.
![]() Mulher varre sujeira em ruínas de prédio abandonado, no Pólo Cabo Branco. Foto: Fabyana Mota/ON/D.A Press. |
Djanete, 50 anos, auxiliar de cozinha, ficou desempregada e sem alternativa se viu obrigada a ir morar no local junto com as duas filhas adolescentes. Uma adolescente de 14 anos mudou-se com o marido e a filha de 1 ano e 5 meses por causa das brigas frequentes na casa dos sogros. Sem dinheiro para alugar um lugar para morar eles se mudaram para o hotel.
A construção abandonada sofreu os efeitos da erosão e apresenta sinais de desabamento. Lages apodrecidas, grandes buracos no chão, rachaduras no teto e nas paredes revelam a ameaça. Os adultos dizem que a cada chuva a tensão aumenta. “Sempre que chove, a gente não dorme, passamos a noite acordados.”, conta Cícero de Lima Silva, 35 anos.
Além dos riscos de desabamento a construção tem grandes fossos destinados a elevadores, que os moradores taparam com tábuas para diminuir o risco de acidentes com as crianças. O ambiente insalubre atrai ratos e baratas que se juntam às muitas ameaças à saúde dos moradores.
A segurança também é uma preocupação. “Não temos medo das pessoas daqui, mas pode aparecer gente de outros lugares e aqui é quase tudo aberto”, diz Thiago da Silva Pessoa, 24 anos. Casado com Josenilda Paes de Oliveira Pessoa, 19 anos, Thiago é um dos genros de Josué e conta que a família e a vizinha Djane sempre revezam a vigilância quando saem de casa. “Quando vamos à igreja sempre fica alguém para garantir que nada ruim vai acontecer”. Djane, preocupada com a segurança das filhas adolescentes, vai levar e buscar a mais nova na escola. “Nunca deixo elas sozinhas. Elas passam a maior parte do tempo trancadas aqui, porque tenho medo, elas são mocinhas, aqui pode entrar gente que não conhecemos”. Sem água encanada os moradores dependem da solidariedade de uma vizinha que mora no terreno ao lado para conseguir água. Em troca eles tiram do pouco que têm para ajudá-la. “Todo mundo aqui ajuda”.
Cidadania negada
Ao se mudar para o hotel não foi apenas a casa que as famílias que moram no local perderam. Muitas tiveram negado seu direito à cidadania. Djane conta que ao tentar matricular a filha de 13 anos na escola do bairro foi impedida e só após ameaçar chamar o conselho tutelar conseguiu uma vaga. “Quando eu disse que morávamos aqui eles não quiseram deixar eu matricular a minha filha, disseram que o pessoal que morava aqui não queria estudar, era bagunceiro”. Apesar da humilhação e do constrangimento Djane garantiu a vaga da filha, mas Josenilda e Thiago não tiveram a mesma sorte. “Procuramos vaga pro nosso filho na creche, para a minha mulher poder voltar a trabalhar como diarista, mas não aceitaram ele porque a gente mora aqui.”, conta Thiago.
Iara Paes de Oliveira Lima, 20 anos, casada com Cícero e filha de Josué diz que o atendimento no posto de saúde mais próximo também é dificultado. “Sempre dizem que não é lá”, diz.
Sem solução à vista
As secretarias de Habitação e de Desenvolvimento Social da prefeitura disseram desconhecer a situação das famílias no local. Segundo a diretora do departamento de política de assistência especial da prefeitura, Benedita Silva Rodrigues, e o secretário municipal adjunto de Habitação Social, Gildimar Alves dos Santos, as famílias devem se dirigir à secretaria de Habitação Social, portando RG e CPF para se cadastrarem no “Minha Casa Minha Vida”.
Alguns moradores dizem já estar cadastrados em programas de habitação popular há anos e nunca terem sido contemplados. É o caso de Cícero que diz estar há 10 anos esperando por uma moradia popular. Outros, sem documentação e sem dinheiro para solicitar os documentos, seguem sem conseguir realizar o cadastro.
Quanto às condições de vulnerabilidade social em que as famílias se encontram, Benedita diz não haver nenhum programa que possa resolver a situação em caráter emergencial. “O auxílio moradia só é destinado às famílias que são obrigadas pela Defesa Civil a desocuparo imóvel”. Ela disse ainda que mesmo em caso de desocupação o auxílio só contempla proprietários de imóveis.
Matéria que fiz para o Jornal O Norte, publicada no último domingo, dia 27. É triste saber que há tantos casos como esses. Mas ser jornalista é ter esperança de que, talvez, se todos souberem , nós possamos juntos mudar alguma coisa. Esse é o link da matéria no site do O Norte http://www.jornalonorte.com.br/2011/03/27/diaadia4_0.php